A questão prévia: em que medida e que sentido pode-se falar de «filosofia indiana»?
Esta questão demanda ser abordada com inteira serenidade. Com efeito, o conhecimento das grandes culturas da Asia — com ou sem filosofia — tem muito a interessar os filósofos. Se tratando da Índia, sua antropologia, suas concepções psicológicas e medicais, a exegese de seus mitos e de seus ritos, a «ideologia tripartita dos indo-europeus» tal qual nos restituíram os trabalhos de Georges Dumézil e Stig Wikander, todos estes dados constituem capítulos importantes e relativamente novos das ciências humanas. Os filósofos poderiam aí encontrar uma mina de materiais próprios a romper associações costumeiras e a renovar algumas de suas grades epistemológicas, hermenêuticas e soteriológicas: se não houvesse o obstáculo linguístico. Pois é a língua (principalmente os originais em sânscrito, pali, traduções tibetanas e chinesas) que permanecem aqui o principal "informador".
Posto que a cultura indiana é bastante rica, em qualquer hipótese, quer dizer com ou sem filosofia, para dar a pensar aos filósofos, propomos pôr entre parênteses os preconceitos axiológicos que viciam frequentemente este gênero de debate e vir à única questão de fato, não polêmica, que é a nossa: há filosofia na Índia? Se sim, em que medida, e em que sentido?